| A espantosa marca de seiscentos “lieder”
(canções) e a facilidade ao compor (chegou a escrever
nove canções em um só dia) podem induzir à
impressão de que esta vasta produção destinava-se
tão-somente ao entretenimento das noitadas lítero-musicais
conhecidas em Viena como schubertíades. E, portanto, seriam
obras menores.
Nada mais enganoso e falso. Schubert chegou a reescrever seis e
até mais vezes canções com as quais não
se considerou satisfeito; revisava cuidadosamente cada partitura
antes de ser enviada ao editor, copiando-a inteira por causa de
poucas notas modificadas, ou então, alterando apenas a tonalidade.
Ele também recusava regularmente poemas que lhe eram oferecidos
para serem musicados. Só compunha sobre versos escolhidos
por ele mesmo.
Este é um dos motivos que levaram os estudiosos a afirmar
que as seiscentas canções constituem, na verdade,
o diário íntimo que ele construiu ao longo de sua
curta vida. Não tão íntimo assim, já
que graças ao famoso cantor Michael Vogl, apaixonado por
suas canções, Schubert assistiu à publicação
de 200 delas – e foi por causa delas que ele tornou-se compositor
respeitado em Viena.
“Nähe des Geliebten”, ou proximidade do amado,
pertence à primeira fornada de canções baseadas
em poemas de Goethe, e foi composta em 1815: dois compassos de crescente
intensidade levam à região aguda e à confissão
ardente “Penso em ti”. Uma obra-prima que obedece à
estrutura estrófica.
“So lasst mich scheinen” é uma das onze canções
que Schubert pinçou de quatro textos diferentes e os juntou
num ciclo intitulado “Canções extraídas
de ‘O aprendizado de Wilhelm Meister’”. Trata-se
de um autêntico romance de formação, onde Goethe
narra as desilusões do jovem Guilherme, que deseja iniciar
carreira de autor dramático numa trupe de comediantes. A
célebre balada de Mignon aparece no livro III: a bela moça
personifica, em sua nostalgia da Itália natal, a angustiada
busca de Goethe da pátria ideal.
“Liebhaber in allen Gestalten”, também sobre
poema de Goethe, foi escrita em 1817 e agrupada com outros três
“lieder” goethianos. “Apaixonado em todas as situações”
pode ser uma tradução adequada para os versos que
cantam a felicidade do amante de qualquer jeito – como peixe,
cavalo, etc. É a felicidade simples que Schubert soube retratar
como ninguém. Atente para o dançante ritornello que
se alterna entre uma e outra estrofe.
“Ellens Gesang III” é uma entre oito canções
de Schubert sobre versos do inglês Walter Scott, iniciador
do romance histórico e um dos modelos absorvidos pela balada
alemã. A segunda das Canções de Ellens (são
três ao todo) convida o caçador ao repouso depois da
lida diária: ritmos pontuados sugerem um heroísmo
marcial na apropriada tonalidade de mi bemol maior.
“Das Lied im Grünen” é um autêntico
“lied” de primavera, um hino à natureza. É
interessante como a passagem do sol para a sombra é feita
abruptamente, com modulações sem nenhuma preparação.
“Der Hirt auf dem Felsen”, ou “O Pastor no Rochedo”,
é um “lied” bastante diferenciado e um dos mais
populares da vasta produção schubertiana, pois inclui
no acompanhamento, além do piano, a clarineta. E seus versos
finais são premonitórios, já que esta foi sua
última canção, composta menos de um mês
antes de sua morte, em novembro de 1828:“A primavera vai chegar,
primavera minha alegria! E agora estou pronto para a viagem”.
30
agosto - 04 de setembro
Elizabeth Vidal soprano,
Michel Lethiec clarineta,
Christian Ivaldi piano (França)
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