F. Schubert (1797-1828)

 

Nähe des Geliebten op. 5 nº 2 D 162

  Mignon II “So lasst mich scheinen” D 727
  Liebhaber in allen Gestalten D 558
  Ellens Gesang III op. 52 no 6 D 839
  Das Lied im Grünen D 917
  Der Hirt auf dem Felsen op. 129

A espantosa marca de seiscentos “lieder” (canções) e a facilidade ao compor (chegou a escrever nove canções em um só dia) podem induzir à impressão de que esta vasta produção destinava-se tão-somente ao entretenimento das noitadas lítero-musicais conhecidas em Viena como schubertíades. E, portanto, seriam obras menores.

Nada mais enganoso e falso. Schubert chegou a reescrever seis e até mais vezes canções com as quais não se considerou satisfeito; revisava cuidadosamente cada partitura antes de ser enviada ao editor, copiando-a inteira por causa de poucas notas modificadas, ou então, alterando apenas a tonalidade. Ele também recusava regularmente poemas que lhe eram oferecidos para serem musicados. Só compunha sobre versos escolhidos por ele mesmo.

Este é um dos motivos que levaram os estudiosos a afirmar que as seiscentas canções constituem, na verdade, o diário íntimo que ele construiu ao longo de sua curta vida. Não tão íntimo assim, já que graças ao famoso cantor Michael Vogl, apaixonado por suas canções, Schubert assistiu à publicação de 200 delas – e foi por causa delas que ele tornou-se compositor respeitado em Viena.

“Nähe des Geliebten”, ou proximidade do amado, pertence à primeira fornada de canções baseadas em poemas de Goethe, e foi composta em 1815: dois compassos de crescente intensidade levam à região aguda e à confissão ardente “Penso em ti”. Uma obra-prima que obedece à estrutura estrófica.

“So lasst mich scheinen” é uma das onze canções que Schubert pinçou de quatro textos diferentes e os juntou num ciclo intitulado “Canções extraídas de ‘O aprendizado de Wilhelm Meister’”. Trata-se de um autêntico romance de formação, onde Goethe narra as desilusões do jovem Guilherme, que deseja iniciar carreira de autor dramático numa trupe de comediantes. A célebre balada de Mignon aparece no livro III: a bela moça personifica, em sua nostalgia da Itália natal, a angustiada busca de Goethe da pátria ideal.

“Liebhaber in allen Gestalten”, também sobre poema de Goethe, foi escrita em 1817 e agrupada com outros três “lieder” goethianos. “Apaixonado em todas as situações” pode ser uma tradução adequada para os versos que cantam a felicidade do amante de qualquer jeito – como peixe, cavalo, etc. É a felicidade simples que Schubert soube retratar como ninguém. Atente para o dançante ritornello que se alterna entre uma e outra estrofe.

“Ellens Gesang III” é uma entre oito canções de Schubert sobre versos do inglês Walter Scott, iniciador do romance histórico e um dos modelos absorvidos pela balada alemã. A segunda das Canções de Ellens (são três ao todo) convida o caçador ao repouso depois da lida diária: ritmos pontuados sugerem um heroísmo marcial na apropriada tonalidade de mi bemol maior.

“Das Lied im Grünen” é um autêntico “lied” de primavera, um hino à natureza. É interessante como a passagem do sol para a sombra é feita abruptamente, com modulações sem nenhuma preparação.

“Der Hirt auf dem Felsen”, ou “O Pastor no Rochedo”, é um “lied” bastante diferenciado e um dos mais populares da vasta produção schubertiana, pois inclui no acompanhamento, além do piano, a clarineta. E seus versos finais são premonitórios, já que esta foi sua última canção, composta menos de um mês antes de sua morte, em novembro de 1828:“A primavera vai chegar, primavera minha alegria! E agora estou pronto para a viagem”.

30 agosto - 04 de setembro
Elizabeth Vidal soprano,
Michel Lethiec clarineta,
Christian Ivaldi piano (França)