Frédéric Chopin (1810-1849)

 

24 Prelúdios opus 28


"Um fragmento deveria ser como uma pequena obra de arte, completo nele mesmo, e separado do restante do universo como um ouriço-cacheiro". A definição é de Schlegel, e foi publicada numa revista literária em 1798 integrando uma série de 451 fragmentos. Cabe à perfeição para uma qualificação estética da obra pianística de Chopin, como acentua Charles Rosen no notável livro "Geração Romântica" (disponível em português). "O ouriço-cacheiro", esclarece, "ao contrário do porco-espinho, que atira seus espinhos, é uma criatura amigável, que se enrola como uma bola quando ameaçada. Sua forma é bem definida, mas imprecisa em seus contornos. O formato esférico, orgânico e idealmente geométrico, foi útil ao pensamento romântico, sobretudo porque, de maneira provocativa, a imagem se projeta para além de si mesma".

O prelúdio, forma que Chopin tomou de empréstimo de seu guru máximo, Johann Sebastian Bach (ele levou apenas duas partituras para a viagem a Mallorca, em 1836, ao lado de George Sand: os manuscritos dos 24 prelúdios opus 28 para uma cuidadosa revisão final; e seu alimento musical diário, o "O Cravo Bem Temperado"), afirma aqui sua carta de alforria. Sem a obrigação de anunciar a fuga ou uma série de danças, como nas suítes barrocas ou na obra bachiana, ele é este ouriço-cacheiro gostosamente caracterizado por Rosen: ou seja, é abstrato, independente, uma mônada que se afirma em seu próprio universo.

Nada mais antiliterário do que estas peças que podem chegar a menos de 30 segundos, em alguns casos extremos. Esta indefinição mesma, porém, propiciou muitos delírios programáticos equivocados, como ironiza Rosen: "O fragmento romântico só derrama sangue para aqueles críticos que o tomam de maneira impensada."

É por isso que o pianista norte-americano – um dos que melhor pensam a música na atualidade, aí incluindo-se as vetustas hostes acadêmicas – insiste que, embora pareçam a um exame superficial uma "mera coleção de peças discrepantes", eles são, pelo contrário "o exemplo mais forte de um conjunto de diminutos fragmentos". A informação de que o próprio Chopin não os idealizou para serem tocados na íntegra em recital, segundo Jefrrey Kallberg, leva Rosen a considerar que "a moda atual de interpretá-los como um conjunto integral não nos permite apreciar, de forma total, a extraordinária individualidade das peças tomadas isoladamente".

Este é um dos raros pontos em que há bons motivos para se discordar de Rosen, embora ele, esperto, admita que "as performances atuais do conjunto revelam aspectos inerentes e fundamentais à sua concepção". Os 24 prelúdios opus 28 foram concebidos por Chopin à imagem e semelhança do "Cravo Bem Temperado". Ele prefere, porém, à ordenação cromática de Bach o ciclo das quintas. As tonalidades vão se sucedendo num ciclo ascendente de quintas, cada uma acompanhada de sua tonalidade relativa menor (dó maior-lá menor, sol maior-mi menor, e assim por diante).  

Difícil apontar destaques num ciclo de tamanha genialidade. Não há espaço para esmiuçar cada um dos 28 prelúdios. Sabendo que eles são ouriços-cacheiros amigáveis, nada há a temer. Pelo contrário, cada um deles é agressivo em sua unidade interna, e nos envolve de modo impactante: existe, claro, uma técnica pianística inigualável traduzida sob forma de música que se encaixa bem nos dedos e aos poucos vai colocando obstáculos até tornar a caminhada musical bastante complexa. Mas para quem assiste, a técnica não aparece, só vem à tona a beleza de um discurso musical em estado puro. Nada mais anti-romântico e ao mesmo tempo nada mais romântico que o piano de Chopin.

João Marcos Coelho

23 - 26 de setembro
Abdel Rahman El Bacha,
piano (Líbano/França)