| "Um fragmento deveria ser
como uma pequena obra de arte, completo nele mesmo, e separado do
restante do universo como um ouriço-cacheiro". A definição
é de Schlegel, e foi publicada numa revista literária
em 1798 integrando uma série de 451 fragmentos. Cabe à
perfeição para uma qualificação estética
da obra pianística de Chopin, como acentua Charles Rosen
no notável livro "Geração Romântica"
(disponível em português). "O ouriço-cacheiro",
esclarece, "ao contrário do porco-espinho, que atira
seus espinhos, é uma criatura amigável, que se enrola
como uma bola quando ameaçada. Sua forma é bem definida,
mas imprecisa em seus contornos. O formato esférico, orgânico
e idealmente geométrico, foi útil ao pensamento romântico,
sobretudo porque, de maneira provocativa, a imagem se projeta para
além de si mesma".
O prelúdio, forma que Chopin tomou de empréstimo de
seu guru máximo, Johann Sebastian Bach (ele levou apenas
duas partituras para a viagem a Mallorca, em 1836, ao lado de George
Sand: os manuscritos dos 24 prelúdios opus 28 para uma cuidadosa
revisão final; e seu alimento musical diário, o "O
Cravo Bem Temperado"), afirma aqui sua carta de alforria. Sem
a obrigação de anunciar a fuga ou uma série
de danças, como nas suítes barrocas ou na obra bachiana,
ele é este ouriço-cacheiro gostosamente caracterizado
por Rosen: ou seja, é abstrato, independente, uma mônada
que se afirma em seu próprio universo.
Nada mais antiliterário do que estas peças que podem
chegar a menos de 30 segundos, em alguns casos extremos. Esta indefinição
mesma, porém, propiciou muitos delírios programáticos
equivocados, como ironiza Rosen: "O fragmento romântico
só derrama sangue para aqueles críticos que o tomam
de maneira impensada."
É por isso que o pianista norte-americano – um dos
que melhor pensam a música na atualidade, aí incluindo-se
as vetustas hostes acadêmicas – insiste que, embora
pareçam a um exame superficial uma "mera coleção
de peças discrepantes", eles são, pelo contrário
"o exemplo mais forte de um conjunto de diminutos fragmentos".
A informação de que o próprio Chopin não
os idealizou para serem tocados na íntegra em recital, segundo
Jefrrey Kallberg, leva Rosen a considerar que "a moda atual
de interpretá-los como um conjunto integral não nos
permite apreciar, de forma total, a extraordinária individualidade
das peças tomadas isoladamente".
Este é um dos raros pontos em que há bons motivos
para se discordar de Rosen, embora ele, esperto, admita que "as
performances atuais do conjunto revelam aspectos inerentes e fundamentais
à sua concepção". Os 24 prelúdios
opus 28 foram concebidos por Chopin à imagem e semelhança
do "Cravo Bem Temperado". Ele prefere, porém, à
ordenação cromática de Bach o ciclo das quintas.
As tonalidades vão se sucedendo num ciclo ascendente de quintas,
cada uma acompanhada de sua tonalidade relativa menor (dó
maior-lá menor, sol maior-mi menor, e assim por diante).
Difícil apontar destaques num ciclo de tamanha genialidade.
Não há espaço para esmiuçar cada um
dos 28 prelúdios. Sabendo que eles são ouriços-cacheiros
amigáveis, nada há a temer. Pelo contrário,
cada um deles é agressivo em sua unidade interna, e nos envolve
de modo impactante: existe, claro, uma técnica pianística
inigualável traduzida sob forma de música que se encaixa
bem nos dedos e aos poucos vai colocando obstáculos até
tornar a caminhada musical bastante complexa. Mas para quem assiste,
a técnica não aparece, só vem à tona
a beleza de um discurso musical em estado puro. Nada mais anti-romântico
e ao mesmo tempo nada mais romântico que o piano de Chopin.
João Marcos Coelho
23
- 26 de setembro
Abdel
Rahman El Bacha,
piano (Líbano/França)
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