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Kurtag: no limite da essência
O compositor húngaro György Kurtág
elegeu como critério permanente de sua criação
musical a preocupação com a essencialidade. Isto é,
escrever música desbastada e reduzida até o limite
do essencial e do indispensável. Entre os contemporâneos,
talvez seja Kurtág, portanto, quem melhor encarna o ideal
da "Arte da Fuga" tal como descrito acima por Alberto
Basso.
Isso não significa somente privilegiar a
música de câmara, e especialmente trios, duos e até
solos de instrumentos de cordas, mas, sobretudo, praticar uma efetiva
economia de linguagem musical. Kurtág tem uma necessidade
interior de compor apenas o que é realmente fundamental,
e esta postura estética se reflete até em suas raras
entrevistas. "Às vezes uma nota é suficiente",
diz ele. "Uma nota pode sintetizar a essência de uma
sensação, um acontecimento, um gesto, um grito, um
soluço. Pode-se fazer música com quase nada".
Este "quase nada" significa, em seu caso, uma rejeição
clara de sistemas rígidos ou de complexidades arbitrárias
no processo de composição.
Boa parte do imenso respeito que sua vida e obra
impõem aos compositores mais jovens advém de sua absoluta
integridade, busca obstinada de meios de expressão individuais
e verdadeiros e seu completo afastamento de toda e qualquer questão
política (apesar das enormes turbulências sob as quais
viveu a maior parte de sua existência).
Nascido em 19 de fevereiro de 1926 em Lugos, na
região da Transilvânia, na Romênia, comprada
pela Hungria logo após a Primeira Guerra Mundial, Kurtág
ainda menino tocava piano a quatro mãos com a mãe.
Decidiu-se pela composição aos 13 anos, ouvindo pelo
rádio uma transmissão da "Inacabada" de
Schubert. Depois de lições de piano e composição
na cidade de Temesvár, ele cruzou a fronteira em busca de
lições com Béla Bartók – esperava-se
com muita ansiedade, em 1945, pela volta para casa do compositor
de "Mandarim Maravilhoso", o que não aconteceu,
pois Bartók morreu nos Estados Unidos.
Foi frutífero, porém, o período
de estudos na Academia Franz Liszt de Budapeste; mas decisivo mesmo
foi o ano de 1956, quando Kurtág estudou em Paris composição
com Darius Milhaud e Olivier Messiaen – sobretudo este último
foi fundamental em sua afirmação criativa severa e
austera. Mas foi com a psicóloga Marianne Stein que ele aprendeu
a trabalhar com unidades diminutas de música – isso
lhe deu os meios técnicos para concretizar suas idéias
de simplicidade e honestidade.
Tendo Goethe como um dos deuses do seu altar criativo,
Kurtág pontilha toda a sua obra com muitas homenagens, tributos
e dedicatórias. A começar de "Movimentos"
para viola e orquestra compostos dez anos após a morte de
Bartók, em que ele não apenas relembra o concerto
para viola do mestre com o qual não conseguiu estudar, mas
utiliza células rítmicas e melódicas em sua
própria peça. De igual modo, Kurtág explora
universos tão díspares quanto os de Schumann e o de
Bach.
Claro, neste último caso, a proximidade
é também espiritual. Ele persegue, como o "Kantor"
de Leipzig, a "ars perfecta" – uma sensação
com a qual sairemos ao final destas Noites Especiais com o Quarteto
Keller. Afinal, o contraste técnico-estilístico é
só aparente, pois ambos se apóiam numa extrema economia
de linguagem. Na música, enfim, reduzida – ou engrandecida?
– até o limite da sua essencialidade.
21
- 23 de outubro
Quarteto Keller cordas (Hungria)
András Keller, violino
Janós Pilz, violino
Zoltán Gál, viola
Peter Somodari, violoncelo
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