J. S. Bach

Contrapunctus I-II-III
Canon XV (Duo para violino e violoncelo)

G. Kurtag

12 Microludes

J. S. Bach

Contrapunctus IV-VI-IX

G. Kurtag

Ligatura/ Homage a J.S. Bach (Trios para violino, viola e violoncello)
Flowers for Szygmondy (Trios para violino,
viola e violoncelo)

J. S. Bach

Canon XIV (Duo para violino e violoncelo)

G. Kurtag

Aus der Ferne III

J. S. Bach

Canon XVII (Duo para violino e violoncelo)

J. S. Bach

Contrapunctus XI

G. Kurtag

Officium Breve op. 28

J. S. Bach

Contrapunctus XVIII (inacabado)

G. Kurtag

Ligatura ( Dois violinos)


Kurtag: no limite da essência
O compositor húngaro György Kurtág elegeu como critério permanente de sua criação musical a preocupação com a essencialidade. Isto é, escrever música desbastada e reduzida até o limite do essencial e do indispensável. Entre os contemporâneos, talvez seja Kurtág, portanto, quem melhor encarna o ideal da "Arte da Fuga" tal como descrito acima por Alberto Basso.

Isso não significa somente privilegiar a música de câmara, e especialmente trios, duos e até solos de instrumentos de cordas, mas, sobretudo, praticar uma efetiva economia de linguagem musical. Kurtág tem uma necessidade interior de compor apenas o que é realmente fundamental, e esta postura estética se reflete até em suas raras entrevistas. "Às vezes uma nota é suficiente", diz ele. "Uma nota pode sintetizar a essência de uma sensação, um acontecimento, um gesto, um grito, um soluço. Pode-se fazer música com quase nada". Este "quase nada" significa, em seu caso, uma rejeição clara de sistemas rígidos ou de complexidades arbitrárias no processo de composição.

Boa parte do imenso respeito que sua vida e obra impõem aos compositores mais jovens advém de sua absoluta integridade, busca obstinada de meios de expressão individuais e verdadeiros e seu completo afastamento de toda e qualquer questão política (apesar das enormes turbulências sob as quais viveu a maior parte de sua existência).

Nascido em 19 de fevereiro de 1926 em Lugos, na região da Transilvânia, na Romênia, comprada pela Hungria logo após a Primeira Guerra Mundial, Kurtág ainda menino tocava piano a quatro mãos com a mãe. Decidiu-se pela composição aos 13 anos, ouvindo pelo rádio uma transmissão da "Inacabada" de Schubert. Depois de lições de piano e composição na cidade de Temesvár, ele cruzou a fronteira em busca de lições com Béla Bartók – esperava-se com muita ansiedade, em 1945, pela volta para casa do compositor de "Mandarim Maravilhoso", o que não aconteceu, pois Bartók morreu nos Estados Unidos.

Foi frutífero, porém, o período de estudos na Academia Franz Liszt de Budapeste; mas decisivo mesmo foi o ano de 1956, quando Kurtág estudou em Paris composição com Darius Milhaud e Olivier Messiaen – sobretudo este último foi fundamental em sua afirmação criativa severa e austera. Mas foi com a psicóloga Marianne Stein que ele aprendeu a trabalhar com unidades diminutas de música – isso lhe deu os meios técnicos para concretizar suas idéias de simplicidade e honestidade.

Tendo Goethe como um dos deuses do seu altar criativo, Kurtág pontilha toda a sua obra com muitas homenagens, tributos e dedicatórias. A começar de "Movimentos" para viola e orquestra compostos dez anos após a morte de Bartók, em que ele não apenas relembra o concerto para viola do mestre com o qual não conseguiu estudar, mas utiliza células rítmicas e melódicas em sua própria peça. De igual modo, Kurtág explora universos tão díspares quanto os de Schumann e o de Bach.

Claro, neste último caso, a proximidade é também espiritual. Ele persegue, como o "Kantor" de Leipzig, a "ars perfecta" – uma sensação com a qual sairemos ao final destas Noites Especiais com o Quarteto Keller. Afinal, o contraste técnico-estilístico é só aparente, pois ambos se apóiam numa extrema economia de linguagem. Na música, enfim, reduzida – ou engrandecida? – até o limite da sua essencialidade.

21 - 23 de outubro
Quarteto Keller cordas
(Hungria)
András Keller, violino
Janós Pilz, violino
Zoltán Gál, viola
Peter Somodari, violoncelo