| Bach: ars perfecta
Ars perfecta – arte perfeita. A expressão
foi utilizada pelo italiano Alberto Basso, um dos mais qualificados
especialistas na obra de Johann Sebastian Bach, para designar a
"Arte da Fuga", um conjunto de fugas e cânones que
visam ilustrar a arte e a técnica do contraponto, sem especificação
nenhuma de instrumentação.
Bach elevou ao clímax, em sua obra, o domínio
do contraponto, historicamente surgido com os motetos do Renascimento
e as peças instrumentais dos séculos 16 e 17, como
o "ricercare", a "canzona" e a "fantasia".
Esta técnica de composição conjuga, em planos
diferentes, duas, três ou mais melodias de naturezas diferentes,
que devem combinar harmonicamente entre si, mas mantendo-se independentes.
É a arte por excelência da escrita musical horizontal,
da qual o exemplo mais acabado é a fuga. Nesta última,
a idéia melódica ou tema é tratado por várias
"vozes" (usa-se a palavra aplicada à música
instrumental) que se sobrepõem em seqüência, até
construir ricas texturas sonoras.
"A Arte da Fuga" foi publicada inacabada
em 1751, um ano após a morte do compositor, mas parece ter
sido em grande parte escrita em 1742 – o que indica que não
foi a morte que a interrompeu, mas, sim, uma decisão pessoal
de Bach. Desde seu surgimento, a "Arte da Fuga" vem causando
polêmica por causa da ausência de indicativos de instrumentação.
Existem atualmente dezenas de versões diferentes, do cravo
a grupos de câmara maiores – mas, ao que tudo indica,
a mais adequada transformação dessa genial partitura
abstrata em sons parece mesmo ser a de um quarteto de cordas.
O título "A Arte da Fuga" não
é de Bach. Foi acrescentado pelo mesmo editor, em 1751, que
publicou uma apresentação de um dos filhos do compositor,
Carl Philipp Emanuel. Este escreve que "os amigos da musa consideraram
oportuno acrescentar, a título de conclusão, um coral
que meu pai, já cego, ditou de sua cama para um amigo".
Na segunda edição, do ano seguinte,
Marpurg, conhecido teórico da música do século
18, assinou um texto virulento de apresentação, lamentando
que "a música contemporânea se mostre tão
pouco aberta a esta forma severa, e historicamente tão gloriosa,
que é a fuga". E aproveitou a ocasião, segundo
Basso, para xingar de "efeminada a produção musical
de seu tempo, que já havia se decidido pelo estilo rococó".
De fato, as quatro primeiras edições da "Arte
da Fuga" venderam apenas 30 exemplares. Não se trata,
entretanto, de música fora de moda, naquele meio de século
18 – mas de um dos exemplos de mais pura e abstrata criação
musical de todos os tempos.
"Esta obra", diz Basso, "é
antes de tudo a manifestação da música que
se desbasta, reduzindo-se ao essencial e ao indispensável,
sob a perspectiva da delicadeza e da intimidade. É música
que se organiza de forma tão pura que o som parece imperceptível
aos sentidos, inefável, suas estruturas únicas, gratuitas
como um jogo, seu significado misterioso e oculto como uma fórmula
alquímica".
21
- 23 de outubro
Quarteto Keller cordas (Hungria)
András Keller, violino
Janós Pilz, violino
Zoltán Gál, viola
Peter Somodari, violoncelo
|