Bedrich Smetana (1824-1884)
Quarteto nº 1 em mi menor - "Minha Vida"

 

Allegro vivo appassionato
Allegro moderato alla polka
Largo sostenuto
Vivace


O primeiro grande representante do nacionalismo musical checo num momento histórico em que ser patriota representava uma opção política corajosa pouco se aventurou no gênero da música de câmara. E quando o fez, foi em situações de profunda depressão. Como em 1855, quando compôs o "Trio para piano e cordas" sob o impacto da morte da filha Frederica; e os dois quartetos de cordas, sob a fulminante revelação da surdez.

O primeiro, que ouviremos hoje, foi composto no momento exato em que Smetana constatou a surdez total e irreversível, na noite de 19 para 20 de outubro de 1874. O quarteto de cordas foi seu primeiro refúgio. Depois de um período de profundo abatimento, Smetana retomou a atividade de compositor em 1876. Entre outubro e dezembro daquele ano, escreveu a obra que chamou de "Minha Vida", que estreou em 29 de março de 1879 em Konkvit. Em seguida, executado em Weimar diante de Liszt, o quarteto obteve do húngaro enorme entusiasmo.

Como Tchaikovsky, Smetana esclareceu em copiosas cartas as intenções e acontecimentos de sua vida pessoal que determinaram sua obra. Numa delas, de 1878, a propósito do quarteto no. 1, ele escreve que "quis retratar em música o desenrolar de minha vida". E esmiúça os movimentos um a um: "Primeiro movimento: gosto pela arte em minha juventude, atmosfera romântica, nostalgia indizível... Paralelamente anuncia-se desde este prólogo a tragédia futura, esta nota mi no final: é o funesto e estridente sinal que marcou o começo de minha surdez.

"O segundo movimento, 'quasi polka', me transporta de novo para o alegre turbilhão da juventude, quando compunha muitas danças checas e gozava da reputação de exímio dançarino...
"O terceiro movimento, 'largo sostenuto', é uma reminiscência de meu primeiro amor por uma jovem que depois tornou-se minha esposa.
"O quarto movimento: conscientização da força real de uma música nacional, alegria de saber que este caminho conduz ao sucesso, até o momento da interrupção brutal provocada pela catástrofe; começo da surdez, perspectiva de triste futuro".

Ainda uma recomendação final do compositor aos membros do quarteto de cordas ao interpretá-lo: "Eles devem entreter-se, como se faria num círculo de amigos, a respeito de fatos realmente importantes. Nada mais".

João Marcos Coelho

11 e 12 de junho
Quarteto Prazak