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O primeiro grande representante do nacionalismo musical checo num
momento histórico em que ser patriota representava uma opção política
corajosa pouco se aventurou no gênero da música de câmara. E quando
o fez, foi em situações de profunda depressão. Como em 1855, quando
compôs o "Trio para piano e cordas" sob o impacto da morte da filha
Frederica; e os dois quartetos de cordas, sob a fulminante revelação
da surdez.
O primeiro, que ouviremos hoje, foi composto no momento exato em
que Smetana constatou a surdez total e irreversível, na noite de
19 para 20 de outubro de 1874. O quarteto de cordas foi seu primeiro
refúgio. Depois de um período de profundo abatimento, Smetana retomou
a atividade de compositor em 1876. Entre outubro e dezembro daquele
ano, escreveu a obra que chamou de "Minha Vida", que estreou em
29 de março de 1879 em Konkvit. Em seguida, executado em Weimar
diante de Liszt, o quarteto obteve do húngaro enorme entusiasmo.
Como Tchaikovsky, Smetana esclareceu em copiosas cartas as intenções
e acontecimentos de sua vida pessoal que determinaram sua obra.
Numa delas, de 1878, a propósito do quarteto no. 1, ele escreve
que "quis retratar em música o desenrolar de minha vida". E esmiúça
os movimentos um a um: "Primeiro movimento: gosto pela arte em minha
juventude, atmosfera romântica, nostalgia indizível... Paralelamente
anuncia-se desde este prólogo a tragédia futura, esta nota mi no
final: é o funesto e estridente sinal que marcou o começo de minha
surdez.
"O segundo movimento, 'quasi polka', me transporta de novo para
o alegre turbilhão da juventude, quando compunha muitas danças checas
e gozava da reputação de exímio dançarino...
"O terceiro movimento, 'largo sostenuto', é uma reminiscência de
meu primeiro amor por uma jovem que depois tornou-se minha esposa.
"O quarto movimento: conscientização da força real de uma música
nacional, alegria de saber que este caminho conduz ao sucesso, até
o momento da interrupção brutal provocada pela catástrofe; começo
da surdez, perspectiva de triste futuro".
Ainda uma recomendação final do compositor aos membros do quarteto
de cordas ao interpretá-lo: "Eles devem entreter-se, como se faria
num círculo de amigos, a respeito de fatos realmente importantes.
Nada mais".
João Marcos Coelho
11 e 12 de junho
Quarteto Prazak
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