| Minifestival Brahms
Estas sete obras – sobretudo as cinco sonatas para violino
e viola e o trio - constituem uma amostragem representativa da produção
camerística de Joahnnes Brahms (1833-1897). Em primeiro lugar,
porque constituem parte substancial de um conjunto total de 25 obras
dedicadas ao gênero. E também porque cobrem um arco
criativo extenso de três décadas – de 1864, data
da composição do Trio para violino, trompa e piano,
até 1894, ano em que Brahms completou a segunda das duas
sonatas para viola.
Mais importante do que isso, porém, é
o fato de que, na segunda metade do século 19, Brahms foi
o único a fazer da música de câmara o laboratório
privilegiado para suas inovações criativas –
fato tão bem acentuado por Arnold Schoenberg em um artigo
famoso.
Pode-se chamar de revolução silenciosa
a que Brahms empreendeu em sua obra, sobretudo na música
de câmara, num momento histórico em que a cena da evolução
musical parecia ter sido tomada de assalto pelas grandes formas,
como a ópera e o poema sinfônico. Foi, portanto, até
certo ponto natural que houvesse um debate acalorado entre Brahms
e os partidários da música pura, de um lado; e de
outro os partidários da obra de arte total, liderados por
Richard Wagner.
Antes de mais nada, tal postura significou um ato
de coragem e uma convicção inabalável em sua
postura estética. A revolução tranqüila
de Brahms foi decisiva para a evolução da linguagem
musical do século 20. Tanto quanto, por exemplo, as óperas
wagnerianas, e certamente mais do que os poemas sinfônicos
lisztianos.
Quem esclareceu de modo definitivo o lugar da produção
camerística brahmsiana, e o seu significado para a música
posterior, foi o maior revolucionário musical do século
20, o austríaco Arnold Schoenberg, para quem Brahms foi o
elemento de ligação entre a música do século
18 e o dodecafonismo da Segunda Escola de Viena.
O próprio Brahms pouco ligava para estas
questões, como dizia seu amigo Max Bruch: "ele jamais
se preocupou com a reação do público ou com
o que os críticos escreviam". Preferiu guiar-se toda
a vida por seu "ouvido interior" (a expressão é
de Villa-Lobos, mas aplica-se à perfeição ao
itinerário criativo de Brahms).
No célebre artigo "Brahms o Progressivo",
onde deixou perplexa sua platéia, ao saudar a contemporaneidade
de um compositor tido e havido como conservador, Schoenberg ressalta
que a obra de Brahms – principalmente a camerística
– representa o momento crítico e uma ponte privilegiada
entre a forma arquitetônica balanceada do século 18
e a rigorosa lógica formal da música dodecafônica.
Não é outra a razão que motivou o autor do
"Pierrot Lunaire" a saudar Brahms, contra tudo e contra
todos, como "o progressivo" por excelência.
As três sonatas para violino e o scherzo da sonata
FAE
A primeira delas, composta em 1878, era a preferida
de Clara Schumann, por causa da citação que Brahms
faz, no "Vivace" e no "Allegro" do tema do "Regenlied",
ou canção da chuva, composta por ele cinco anos antes
sobre poema de Klaus Groth.
A segunda levou a apelido de "Thuner-sonate",
rememorando o fato de que foi escrita na primavera de 1886 por Brahms
em férias em Hofstatten, às margens do lago Thun,
na Suíça: a aqui também o compositor enxerta
a melodia de um "lied" no Allegretto grazioso final: "Meine
Liebe ist grün wie der Fliederbusch", opus 63, no. 5.
Novamente, Clara encantou-se de modo supremo com a sonata: "Há
muito tempo não me sentia tão feliz", escreveu
ela logo depois de fazer uma leitura da peça ao piano.
A terceira, esboçada em Hofstatten, em 1886,
foi dedicada ao amigo maestro Hans von Bülow. Ao contrário
das duas anteriores, possui quatro movimentos – a novidade
é um Adagio, que, sintomaticamente, é o clímax
da sonata.
O "Scherzo" em dó menor foi escrito
em 1853, e publicado postumamente, em 1906, e integra uma sonata
a seis mãos, composta em grupo: o primeiro movimento foi
escrito por Dietrich, e o segundo e o quarto movimentos por Robert
Schumann. O título pelo qual a sonata é conhecida,
FAE, representa ao mesmo tempo as Fá-Lá-M e também
a inicial das palavras alemãs frei aber einsam, ou livre
mas solitário, o slogan usado pelo grupo de jovens compositores
e músicos que se concentrou em torno de Robert Schumann.
As duas sonatas para viola opus 120
Compostas em 1894, constituem as mais representativas entre as últimas
obras escritas por Brahms. Ele tinha solenemente prometido, em 1890,
"não compor mais nada". Chegou a escrever ao seu
editor Simrock pedindo-lhe que queimasse todos os seus manuscritos.
Ressalvou, ironicamente, porém: "você não
vai ter como satisfazer meus desejos, pois eu mesmo os destruirei
a tempo".
O amigo que conseguiu afastá-lo de tamanha
depressão foi o clarinetista da orquestra de Meiningen, Richard
Mühlfeld. O resultado foram quatro verdadeiras obras-primas,
todas endereçadas à clarineta: o trio opus 114 e o
quinteto com clarineta opus 115, além das duas sonatas opus
120. Das sonatas, Brahms fez uma versão para viola, e dedicou-as
a outro amigo de longo tempo, o violinista Joseph Joachim.
São, sim, obras da plena maturidade. São,
sobretudo, precioso elemento de ligação entre a música
dos séculos 19 e 20. Em ambas as sonatas, sente-se que Brahms
põe um olho na modernidade, embora conserve uma solidez de
escrita admirável. É o que as tornam únicas
em sua produção de câmara.
Trio para piano, violino e trompa
Composto em 1864, durante uma estada em Baden-Baden, só foi
terminado um ano depois, quando Brahms acabara de perder a mãe.
Mas, embora o trio prescreva os instrumentos que ele tocou desde
a meninice, não tem um tom elegíaco.
Pelo contrário, recria a atmosfera alegre
de um passeio pela Floresta Negra. "Caminhando uma manhã",
contou o compositor a um amigo, "notei o sol brilhando entre
as árvores: a idéia do Trio me veio imediatamente
à cabeça, já com seu primeiro tema".
João Marcos Coelho
04
de novembro
Régis
Pasquier, violino
Emmanuel
Strosser, piano
Roberto
Ring, violoncelo
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