Brahms

Sonata op. 78 nº 1 em sol maior
Sonata op.120 nº 2 em mi bemol maior
Sonata op.108 nº 3 em ré menor

Brahms

Sonata op.100 nº 2 em lá maior
Sonata op.120 nº 1 em fá maior
Trio op.40 em mi bemol maior*


Minifestival Brahms

Estas sete obras – sobretudo as cinco sonatas para violino e viola e o trio - constituem uma amostragem representativa da produção camerística de Joahnnes Brahms (1833-1897). Em primeiro lugar, porque constituem parte substancial de um conjunto total de 25 obras dedicadas ao gênero. E também porque cobrem um arco criativo extenso de três décadas – de 1864, data da composição do Trio para violino, trompa e piano, até 1894, ano em que Brahms completou a segunda das duas sonatas para viola.

Mais importante do que isso, porém, é o fato de que, na segunda metade do século 19, Brahms foi o único a fazer da música de câmara o laboratório privilegiado para suas inovações criativas – fato tão bem acentuado por Arnold Schoenberg em um artigo famoso.

Pode-se chamar de revolução silenciosa a que Brahms empreendeu em sua obra, sobretudo na música de câmara, num momento histórico em que a cena da evolução musical parecia ter sido tomada de assalto pelas grandes formas, como a ópera e o poema sinfônico. Foi, portanto, até certo ponto natural que houvesse um debate acalorado entre Brahms e os partidários da música pura, de um lado; e de outro os partidários da obra de arte total, liderados por Richard Wagner.

Antes de mais nada, tal postura significou um ato de coragem e uma convicção inabalável em sua postura estética. A revolução tranqüila de Brahms foi decisiva para a evolução da linguagem musical do século 20. Tanto quanto, por exemplo, as óperas wagnerianas, e certamente mais do que os poemas sinfônicos lisztianos.

Quem esclareceu de modo definitivo o lugar da produção camerística brahmsiana, e o seu significado para a música posterior, foi o maior revolucionário musical do século 20, o austríaco Arnold Schoenberg, para quem Brahms foi o elemento de ligação entre a música do século 18 e o dodecafonismo da Segunda Escola de Viena.

O próprio Brahms pouco ligava para estas questões, como dizia seu amigo Max Bruch: "ele jamais se preocupou com a reação do público ou com o que os críticos escreviam". Preferiu guiar-se toda a vida por seu "ouvido interior" (a expressão é de Villa-Lobos, mas aplica-se à perfeição ao itinerário criativo de Brahms).

No célebre artigo "Brahms o Progressivo", onde deixou perplexa sua platéia, ao saudar a contemporaneidade de um compositor tido e havido como conservador, Schoenberg ressalta que a obra de Brahms – principalmente a camerística – representa o momento crítico e uma ponte privilegiada entre a forma arquitetônica balanceada do século 18 e a rigorosa lógica formal da música dodecafônica. Não é outra a razão que motivou o autor do "Pierrot Lunaire" a saudar Brahms, contra tudo e contra todos, como "o progressivo" por excelência.


As três sonatas para violino e o scherzo da sonata FAE

A primeira delas, composta em 1878, era a preferida de Clara Schumann, por causa da citação que Brahms faz, no "Vivace" e no "Allegro" do tema do "Regenlied", ou canção da chuva, composta por ele cinco anos antes sobre poema de Klaus Groth.

A segunda levou a apelido de "Thuner-sonate", rememorando o fato de que foi escrita na primavera de 1886 por Brahms em férias em Hofstatten, às margens do lago Thun, na Suíça: a aqui também o compositor enxerta a melodia de um "lied" no Allegretto grazioso final: "Meine Liebe ist grün wie der Fliederbusch", opus 63, no. 5. Novamente, Clara encantou-se de modo supremo com a sonata: "Há muito tempo não me sentia tão feliz", escreveu ela logo depois de fazer uma leitura da peça ao piano.

A terceira, esboçada em Hofstatten, em 1886, foi dedicada ao amigo maestro Hans von Bülow. Ao contrário das duas anteriores, possui quatro movimentos – a novidade é um Adagio, que, sintomaticamente, é o clímax da sonata.

O "Scherzo" em dó menor foi escrito em 1853, e publicado postumamente, em 1906, e integra uma sonata a seis mãos, composta em grupo: o primeiro movimento foi escrito por Dietrich, e o segundo e o quarto movimentos por Robert Schumann. O título pelo qual a sonata é conhecida, FAE, representa ao mesmo tempo as Fá-Lá-M e também a inicial das palavras alemãs frei aber einsam, ou livre mas solitário, o slogan usado pelo grupo de jovens compositores e músicos que se concentrou em torno de Robert Schumann.

As duas sonatas para viola opus 120
Compostas em 1894, constituem as mais representativas entre as últimas obras escritas por Brahms. Ele tinha solenemente prometido, em 1890, "não compor mais nada". Chegou a escrever ao seu editor Simrock pedindo-lhe que queimasse todos os seus manuscritos. Ressalvou, ironicamente, porém: "você não vai ter como satisfazer meus desejos, pois eu mesmo os destruirei a tempo".

O amigo que conseguiu afastá-lo de tamanha depressão foi o clarinetista da orquestra de Meiningen, Richard Mühlfeld. O resultado foram quatro verdadeiras obras-primas, todas endereçadas à clarineta: o trio opus 114 e o quinteto com clarineta opus 115, além das duas sonatas opus 120. Das sonatas, Brahms fez uma versão para viola, e dedicou-as a outro amigo de longo tempo, o violinista Joseph Joachim.

São, sim, obras da plena maturidade. São, sobretudo, precioso elemento de ligação entre a música dos séculos 19 e 20. Em ambas as sonatas, sente-se que Brahms põe um olho na modernidade, embora conserve uma solidez de escrita admirável. É o que as tornam únicas em sua produção de câmara.

Trio para piano, violino e trompa
Composto em 1864, durante uma estada em Baden-Baden, só foi terminado um ano depois, quando Brahms acabara de perder a mãe. Mas, embora o trio prescreva os instrumentos que ele tocou desde a meninice, não tem um tom elegíaco.

Pelo contrário, recria a atmosfera alegre de um passeio pela Floresta Negra. "Caminhando uma manhã", contou o compositor a um amigo, "notei o sol brilhando entre as árvores: a idéia do Trio me veio imediatamente à cabeça, já com seu primeiro tema".

João Marcos Coelho


04 de novembro
Régis Pasquier, violino
Emmanuel Strosser, piano
Roberto Ring, violoncelo